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Neve

por Mariana, em 08.11.11

A neve bate-lhe no rosto: branca e fria. Em nada se parece com a neve com que um dia tinha brincado. Em nada se parece com a neve sobre a qual um dia tinha lido nas mil e uma histórias de encantar.

Naquele dia a neve bate-lhe repetidamente no rosto e cada floco de neve é como uma pedra que cai em cima de si e lhe relembra que está cá fora sozinho.

Nem sempre tinha sido assim. Noutros tempos a neve era-lhe agradável. Quando estava com ela e a neve lhes interrompia o beijo, quando estava com eles e a neve os convidava a fazer o maior boneco de neve de sempre. Ou então quando a observavam todos juntos do lado de dentro da janela.

Mas agora, agora está sozinho. Aos poucos todos foram desaparecendo, morrendo, abandonando-o. Todos o deixaram de uma forma ou de outra e em nada o consola que muitos deles não tenham tido culpa do seu próprio afastamento ou desaparecimento. Há muito que a sua vontade de continuar por ali desapareceu e o abandonou também. As lágrimas que correm pelo seu rosto quando pensa em tudo isso gelam em contacto com a neve que cai. Quem lhe dera a ele tornar-se gelado e deixar de sentir também. Talvez assim pudesse viver. Uma forma limitada de viver, é certo. Como se fosse uma máquina. Mas em que é melhor a forma de vida que tem agora?

Desta vez, quando olha pela janela, fá-lo do lado de fora. Vê pessoas à mesa, uma família feliz. Crianças a rir às gargalhadas, despreocupadas como se nada lhes pudesse acontecer; pais sorridentes e felizes por ver a família unida. As lágrimas caem continuamente ao perceber que também ele já foi assim e que tudo isso lhe foi tirado de repente e sem permissão.

A neve bate-lhe no rosto: branca e fria.  Quem lhe dera a ele tornar-se gelado e deixar de sentir também.

 

 

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