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Chuva

por Mariana, em 04.02.14

Hoje, a chuva escorre pela janela e tu não vens. Eu sei. No entanto os meus olhos ganharam vida e não deixam de se fixar no local em que te viram pela última vez. Engraçado, a água caía da mesma forma naquele dia. Lembras-te?

Apareceste cá em casa com o cabelo a escorrer e um sobretudo azul-marinho encharcado. Parecias desvairado, ansioso – da chuva pensei eu. Estava errada. Tirei-te o casaco e ofereci-te um café a escaldar para te aqueceres, mas parecias com pressa, como quem quer ir directo ao assunto e sair daqui. “Precisamos de falar.”- disseste tu, e eu percebi que desde o momento em que tinhas entrado por aquela porta, eu sabia o que irias dizer. “Já não dá mais. Acabou. Espero que possamos continuar amigos.” A poesia nunca foi o teu forte. Nunca usaste metáforas, hipérboles ou eufemismos e odiavas quando por acidente, as tuas frases acabavam por rimar. Nunca foste de dar muitas explicações, também. As coisas para ti ou eram ou não. Não tinham porquê. E de um momento para o outro uma qualidade tua transformou-se num defeito. Com o teu embaraço característico foste embora, sem mais nada. Saíste pela porta por onde tinhas entrado nem há meia hora atrás. E eu fiquei a ver-te desaparecer pela minha janela. Ias passando por trás da água que cobria a janela e os meus olhos, com uma calma desconcertante de quem tinha tirado o peso do mundo de cima das costas. A certa altura já não sabia se a água que via à minha frente era a que inundava a janela ou os meus olhos mas não importava. Tinhas ido embora.

Ainda hoje, e ao fim deste tempo todo, me pergunto o porquê, do que é que deixaste de gostar; porque é que de repente deixou de dar. Quando me olho ao espelho pergunto-me se foram os meus olhos castanhos que ficaram demasiado castanhos para ti. Ou terá sido o cabelo que de repente já não era liso o suficiente. Terá sido a minha voz que se tornou mais fina e tu não conseguiste suportar ou foi o quilo que eu ganhei no Natal? Se calhar foi a minha mania de andar descalça e de querer sair a um sábado à noite que te cansou… Sim, ainda hoje não sei. Não consigo perceber. O quilo já cá não está e a voz agora é tão sussurrante que não ias notar. O cabelo é esticado todos os dias e agora já não saio ao sábado à noite. Mas, mesmo assim, tu não voltaste. Ainda não.

E agora, finalmente, começo a perceber que, se calhar quem mudou não fui eu, mas sim tu.

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4 comentários

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De raquel a 10.02.2014 às 15:06

Olá Mariana. O meu padrinho disse-me o mesmos sobre a minha média. Estou a estudar CC na FCSH/UNL :)
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De Miguel Alexandre Pereira a 18.02.2014 às 23:20

Infelizmente estes momentos menos bons fazem parte da nossa vida. Dói imenso uma separação. Apesar do tom triste, gostei do texto :)
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De Yohanan a 19.02.2014 às 00:27

agora fui eu que me fui.
está muito bom como sempre.
e caga. se fizeste o bem, ele volta. se ñ voltar, ñ presta. ñ penses mais. 
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De Yohanan a 28.02.2014 às 20:07

És sempre a mesma coisa! acredito sempre -.-

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