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Rumo ao sol

por Mariana, em 10.05.10

Sabes? Eu lembro-me do dia em que partiste. O teu último pedido foi que aproveitasse os dias que me restavam. Para que aproveitasse a vida que me restava. Para que deixasse que o Sol me aquecesse e que as ondas do mar me molhassem os pés. Para que deixasse que o vento batesse na minha cara e levantasse os meus cabelos. Para que deixasse que os perfumes das flores me invadisse. Para que sorrisse quando tivesse vontade, para que risse às gargalhadas sem medo de ferir alguém, de violar as aparências, de quebrar o luto. Para que chorasse quando quisesse, mas que depois, limpasse as lágrimas e andasse para a frente. Para que fosse feliz nos dias que me restavam.

Ao princípio pensei que fosse impossível. Como poderia eu aquecer-me ao Sol quando o meu Sol eras tu? Como poderia eu molhar os pés nas ondas do mar quando as ondas me faziam lembrar os dias passados na praia contigo? E como poderia sentir o perfume das flores, se eras tu quem mas oferecia? E rir! Como podia eu rir quando os risos eram provocados por ti? DepRumo ao Solois de uma vida contigo, o meu mundo eras Tu. Como podia eu seguir em frente?

Mas depois, comecei a sorrir levemente quando o nosso neto disse a primeira palavra. Deixei que o Sol me aquecesse e as ondas me molhassem os pés quando ele me levou em segredo à praia. Deixei que o perfume das flores me confundisse os sentidos quando ele me ofereceu as orquídeas de que eu tanto gostava. Descobri uma nova razão. Descobri um novo amor. E recomecei a viver.

Sorri, senti, dei passeios intermináveis, longas conversas, li maravilhosos livros, queimei-me com o chocolate quente, senti o mar, o vento, o sol, as flores. Empurrei o baloiço dele e dei longas gargalhadas com ele. Afinal, tu não me tinhas deixado sozinha. Tinhas-me dado esse maravilhoso neto.

E, quando fiquei doente, agradeci-te pelo apelo que me tinhas feito. Pois sem tu me pedires, eu não tinha aproveitado os dias que me restavam. Lembrei-me de uma das nossas últimas conversas quando me disseste que querias ser cremado e que as tuas cinzas deviam ser lançadas pela cidade. Não tinhas medo que elas se confundissem com o fumo dos automóveis ou com a sujidade. Querias estar onde as pessoas estão porque tu gostavas de pessoas. Querias esperar por mim para que ficássemos juntos. Percebi nesse momento o que me pedias e foi esse o meu último pedido.

Agora, estou dentro de uma caixa, pronta para ser lançada de cima de um prédio. À medida que a destapam eu vejo-te lá em baixo, á minha espera. Quando cair, daremos as mãos e juntos andaremos. Passaremos pelas casas dos jovens que começam uma nova vida em conjunto. Passaremos pelas árvores e testemunharemos as promessas de amor aí eternizadas. Abençoaremos as uniões nas igrejas juntamente com o arroz que é lançado. Veremos os pinheiros serem enfeitados com o amor das famílias. Veremos os sorrisos das crianças. As gargalhadas pelos motivos que só eles entendem. E, depois de um último beijo, voaremos.

Rumo ao Sol.

 

[100 Comentários!!! Obrigado. Beijos Mariana]

 

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1 comentário

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De Filipa. a 11.05.2010 às 20:50

Oh, a serio?
qe giro.
beijo

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