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Ódio

por Mariana, em 01.02.12

Clap. O que me doeu mais? Não foi o som que ouvi. Não foi o calor que senti na minha bochecha no segundo seguinte ou a marca dos dedos na minha pele. Nem sequer foi o sentir a mão dele a vir ao encontro da minha cara numa espécie de cena de cinema em câmara lenta. O que me doeu mais foi ter sido ele. Foi a discussão que veio antes e a revolta que veio depois. O que me magoou mais foram as palavras ditas.

Começou como sempre começava. Eu estava ali, à frente dele e isso bastava. Não foi preciso fazer nada ou deixar de fazer. O existir era motivo suficiente para a discussão e os insultos começarem. Primeiro debitou sobre a inutilidade e quão imprestável eu era. Aparentemente, o motivo desta vez era eu não ter lavado a louça adequadamente. Uma das minhas poucas responsabilidades, segundo ele, e nem assim a conseguia fazer em condições. Depois o assunto desviou-se. Já não era o facto de não ter lavado a louça. Era existir. Viver ali; estar sentada; estar de pé; falar; estar calda; sair ou ficar. Eu não servia para nada. Era uma inútil. Um fardo para ele que me sustentava desde que eu tinha nascido. Depois de debitar sobre isso uns bons minutos passou para o assunto seguinte quando eu, assustada, murmurei um 'Desculpa' apagado: a minha gaguez. Nem falar eu sabia. Nem para isso servia. Sempre a gaguejar, a tropeçar nas palavras, sem formar frases completas e compreensíveis.

Por isso eu devia saber que aquele era o próximo tópico. Todas as discussões iam parar ali invariavelmente. E, no entanto, eu nunca conseguia estar completamente preparada para ele. Cada vez que ele dizia aquelas palavras, desferia aqueles insultos, o meu coração apertava e os meus olhos começavam a ficar perigosamente húmidos. Começava por uma pequena referência à minha mãe. Sobre o quão diferente dela eu era. Como nem na aparência física eramos parecidas. Como os seus olhos eram mais verdes e a sua boca mais vermelha. Como a sua pele era mais pálida e o seu cabelo mais sedoso. Depois falava da coragem dela, da sua segurança. E nessa altura, já os meus punhos estavam cerrados à espera da pior parte. "A culpa é tua" era a frase que embatia no meu coração como se fossem pedras atiradas. "Morreu para tu nasceres. Tu mataste-a!". Nessa parte as lágrimas caíram-me como sempre caiam. Eu sempre soube que esse era o motivo para tanto ódio, e no entanto não ficava mais fácil por já ter ouvido isso tantas vezes. "Ela morreu por uma inútil." Cada vez que o dizias era como uma facada que davas no meu coração.

Foi quando virei as costas já cansada de ouvir o que dizias e de sofrer. Foi também quando me agarraste e me bateste.

E foi nesse momento que decidi que não aguentava mais. Que tinha chegado o momento de dizer basta. Reparei no teu olhar de desprezo e curiosidade quando peguei na arma que tinhas guardada na gaveta. Carregada como sempre.

Foi o que me doeu mais. Ver o teu olhar de desprezo, ódio, curiosidade a apagar-se para sempre. Porque tu odiavas-me mas eu não. 

 

 

[O facto de eu já não escrever aqui há milhões de anos deve-se à avaria do

 meu computador e à falta de tempo para fazer alguma coisa útil. Eu prometo

que vou começar a escrever regularmente...] 

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1 comentário

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De copodeleite a 01.02.2012 às 19:16

este texto compensa a tua ausência. bem doseados os momentos, percebemos a plenitude dos acontecimentos experienciados pelo o eu. gosto!


(cuidado com os erros ortográficos)

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