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A casa do Lago

por Mariana, em 23.10.11

Era uma casa antiga. Provavelmente estava naquela família há séculos. Era daquelas casas que passam de geração em geração e permanecem inalteráveis como se lá, o tempo não passasse. Aliás, era exactamente essa a sensação que aquela casa lhe transmitia: o tempo tinha parado, estava preso num instante interminável. Os móveis estavam cobertos com um pano que em tempos fora branco mas que naquele momento estava sujo com o pó que pousava continuamente. As escadas, de madeira, davam acesso ao andar de cima onde ficavam os quartos. Há quanto tempo não ia ao andar de cima. Mas lembrava-se bem. Lembrava-se do seu quarto. Da mobília antiga e impessoal, que aliás caracterizava toda a casa. Lembrava-se do corredor, repleto de quadros na parede que mostravam todos os seus antepassados e toda a sua família.

Olhou pela janela. O vidro estava sujo e a imagem não era muito nítida. Mas conseguia ver as árvores. Conseguia ver a neve a cair e a cobrir lentamente o verde de um branco puro. Viu os baloiços a moverem-se ao sabor do vento. E por fim, olhou para o grande lago gelado. Pelo seu corpo correu um arrepio gélido que nada tinha a ver com o frio que se sentia naquele fim de dia de Inverno. À medida que ia olhando para o lago identificou aquilo de que andava à procura. Primeiro os cabelos ruivos, ainda ondulados, que ele conhecia tão bem e que boiavam como folhas mortas no lago. Depois viu os olhos vítreos que olhavam cegamente o céu como que em busca de uma réstia de esperança; os lábios ainda vermelhos cor de sangue contrastavam com o branco da sua pele. Quem não a conhecesse poderia dizer que era fruto da sua condição mas ele conhecia de cor a cor daquela pele. Finalmente arrastou o seu olhar para o resto do corpo morto boiando nas águas. Parecia tão leve, tão vazio, tão cheio de nada…

Retirou a custo os olhos dela e olhou em volta admirando mais uma vez aquela casa. O pó, próprio de uma casa abandonada há tanto tempo, redemoinhava pelo ar como que respondendo à entrada daquele intruso.

-Fiz o que tinha de ser feito. – Disse para si mesmo. E tentando convencer-se disso mesmo, saiu dali deixando a casa de novo entregue a si mesma e aquele maldito lago que sempre se tinha afirmado como seu dono.

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5 comentários

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De copodeleite a 23.10.2011 às 19:22

muito bem escrito. gostei :)
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De copodeleite a 23.10.2011 às 21:10

De nada. :)
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De ana gonçalves a 25.10.2011 às 16:05

Não devia ser assim.. Mas a verdade é que o é. Para quê pensar no amanhã? O hoje ainda parece tão grande..
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De maria joão a 06.11.2011 às 21:50

isto está simplesmente lindo. 
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De maria joão a 07.11.2011 às 21:13

muito obrigada :3

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