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por Mariana, em 16.01.10
Querido Gonçalo:
Lembro-me de quando nos conhecemos. Lembro-me tão bem que podia fazer um retrato teu se quisesses. Lembro-me de cada cabelo dourado. Lembro-me dos olhos azuis tão puros. Lembro-me das covinhas da tua cara quando rias. Lembro-me da inocência que sempre espelhaste, presente na tua cara. Lembro-me.
Lembro-me das nossas conversas. Lembro-me das gargalhadas. Lembro-me das lágrimas. Lembro-me dos segredos. Lembro-me das brincadeiras.
Não me lembro de quando te tornaste o meu melhor amigo. Parecia que nos conhecemos desde sempre.
Lembro-me quando me disseste que querias ser mais do que isso. O meu mundo caiu. Não era isso que eu sentia por ti. Não te queria magoar. Não te queria perder. Queria que tudo continuasse como estava. Mas disse-te que não. Disse que percebia se te quisesses afastar. E tu viste as minhas lágrimas a escorrer pelo meu rosto. E ficaste comigo a consolar-me pela tua desilusão.
Ficaste comigo durante todos estes anos. Mostraste felicidade quando as minhas paixões me faziam feliz. Consolavas-me quando sofria desilusões.
Amas-te-me em silêncio, sem coragem para me mostrares que estavas a sofrer. Cada vez que eu vinha feliz por causa de um novo amor. Cada vez que falava dele com entusiasmo. Tentavas mostrar que já me tinhas esquecido. Eu sabia que não era inteiramente verdade, mas era muito egoísta para te mandar afastar uma segunda vez.
E no dia em que foste embora, o meu mundo desabou. Chorei, chorei, chorei. Chorei como nunca tinha chorado na vida. Porque tu não estavas comigo para me consolar.
No dia do teu funeral, já não conseguia chorar. Sabes? Já não ia a uma igreja à muito tempo. Já tinha perdido toda a minha fé. E não conseguia ouvir o padre. Não conseguia tirar os meus olhos de ti. Procurava alguma coisa, não sabia bem o quê. Mas o teu rosto estava diferente. Pensei. Percebi. Faltava a tua inocência. Tu não estavas ali.Aquilo não eras tu. Era um corpo.
Percebi outra coisa. Percebi que tu sempre tinhas estado correcto. Que aquilo que tinhamos era mais que uma forte amizade. Aquilo era Amor. Tu eras o tal. Mas eu não estava pronta para te encontrar. Não estava pronta para encontrar o verdeiro amor. Um amor tão subtil, tão maravilhoso, tão cruel, tão bondoso... Perdi-o por causa da minha inconsciência.
Mas agora sei. Agora percebo. Agora já não procuro mais. Agora já encontrei.
E tomo uma decisão aqui. Vou ter contigo, está bem? Eu sei que ainda me queres. Sei que sentes a minha falta. E já não tenho medo de ir. O teu corpo ensinou-me que há um futuro. Que a vida é depois da morte.
E sei que guardas um lugar para mim aí. Aí onde a Julieta encontrou o Romeu. Aí onde as histórias trágicas têm um final feliz. Aí no Paraíso.
Espera por mim,
Inês.

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3 comentários

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De The Last piece of cake a 21.01.2010 às 12:49

parabéns à artista, Amanda Palmer, não a mim :P

"Mas o teu rosto estava diferente. Pensei. Percebi. Faltava a tua inocência. Tu não estavas ali.Aquilo não eras tu. Era um corpo. "

ainda há pouco tempo passei por essa situação... custa imenso.
Mas sim, é só um corpo. A essência já não está lá. Está noutro lugar. No Lugar.
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De Maria Francisca a 22.01.2010 às 16:36

Antes de mais nada, obrigada pelo comentário Mariana. Significou muito, acredita.
Gostei imenso da tua 'carta', faço algumas vezes este tipo de textos.
E sim, muitas vezes não estamos preparados emocionalmente para receber o verdadeiro amor. Ou então só queremos negar.
E (também) sim, para quem acredita existe sempre um lugar a seguir.
A vida era demasiado curta se fosse só isto.
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De speakerstime a 23.01.2010 às 02:38

Grande vénia, mesmo. Adorei o texto, do início ao fim. Gostei da estrutura imposta, gostei da história injectada e gostei também das doses de amor incorporadas. Gostei mesmo. Parabéns, texto de excelência.

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